Quadros de Ilhabela
Hoje apresento o Cajueiro N.1. Eu tinha um ideal de mudar as cores da realidade, e nessa pintura pude observar essa intenção com mais profundidade. Eu acordava às 05h00, o que para mim era uma raridade, dado que até então eu era notívago. Primeiro lancei um desenho; depois, camadas finas de cor . O gramado eu primeiro pintei de azul, depois lancei o rosa. Essa sutil sucessão de camadas, com as adições de partes do tema - a natureza - foram me dando segurança no desenvolvimento da série, O triunfo do desenho. Outros trabalhos que a compuseram, eu saberia reproduzir. Essa tela não. Ela é totalmente única para mim. Tem 1 m x 1 m. Sonho em retomar essa intenção poética. O sítio da Beth de Pedra Bela, aonde comecei a ir em 2020, tem muitos aclives:, é difícil ainda, para mim, observar as particularidades da vegetação. E desde essa época de atelier em Ilhabela, que foi de 2004 a 2012, eu passei a usar óculos. É difícil observar as coisas assim, estou me adaptando. Na verdade eu preciso desenhar mais. A habilidade do desenho no papel dá o caminho evolutivo para o pincel numa tela. /// corrigido
Nessa época eu já tinha noções de Concretismo e Suprematismo, então a primeira coisa que fiz foi dividir o campo visual em três: azul do céu, roxo do muro e verde do gramado. Fora o roxo do muro e o azul da copa do cajueiro, todas as cores são reais. Esse "naturalismo" sem sombras e essa divisão suprematista do espaço abriram meu entendimento para registrar tudo aquilo que eu enxergava no jardim. Por fim, conquistei o equilíbrio de composição entre as copas do cajueiro e do coqueiro. Era uma época em que eu desenhava muito e pude perceber os pincéis acompanhando na tela os percursos do lápis sobre os exercícios em papel. Esse fôlego, verdadeira fé de que os exercícios de bastidores rendem qualidade na execução final sobre tela, é uma verdade que pude verificar e que de certo modo esqueci e que preciso recuperar. Às vezes não se trata de tanto esforço, mas de um esforço presente e coordenado. /// corrigido
Essa tela veio após uma evolução de 40 pinturas no litoral. Pela primeira vez adicionei branco às cores. É uma prática que aprendi em casa, com meu pai professor, de repetir um mesmo tema. Cézanne fazia isso com a paisagem de uma montanha, Van Gogh com os Girassóis. Aqui apresento a terceira versão do Cajueiro, onde pude colocar tanto empaste (carga de tinta) quanto eu conseguisse e quisesse. Adicionar branco às cores intensas me abriu uma nova perspectiva de volume e desenho da vegetação. Aumentou as possibilidades cromáticas e de matiz. Esse quadro, de certo modo, é o fim de uma experiência com cores que eu pretendia ser a primeira. Usar mais branco na cromia das paisagens terminou praticamente aí. Depois de 2007, passei a experimentar o desenho puro sobre a tela. E depois vieram os abstratos. Agora, em 2021, estou retomando as paisagens com a liberdade de usar branco na mistura com as cromas. Antes era apenas a tinta na sua cor pura do tubo ou cores puras misturadas entre si. Usar o branco, a cor terra e o preto, assim como as neutralizações de cores, ***são novidades para mim que estou praticando mais só desde 2020. ***são soluções que tenho praticado mais desde 2020. /// corrigido
Tem um procedimento de construção da imagem que é, em determinado momento da pintura,
cobri-la 50% com um procedimento estético. No caso, com manchas vermelhas e risquinhos
verticais. A técnica é de tinta acrílica e, sobre esta, giz pastel seco e carvão. Sobre isso lancei
novas camadas de tinta acrílica transparentes. É um de meus quadros preferidos!
É meio geométrico, é um caminho improvável para a abstração. /// corrigido
Esta tela é meio que um processo aberto do Cajueiro n. 4. Em que sentido? No sentido de expor mais nitidamente as linhas verticais, que são instrumento para encobrir a imagem num dado estágio de sua produção. Fiz com tinta acrílica, carvão, grafite e giz branco sobre tela de linho. Eu tinha concluído a faculdade em 2007, ano em que produzi pouquíssimo. Então fui retomando a pintura sempre no sentido de melhorar o desenho. Para que tintas se o desenho precisava melhorar? Aí retirei a tinta... Não sei por que não continuei a pesquisa cromática do Cajueiro n. 4. Nessa tela se estabeleceu uma inflexão. Dela frutificaram vários desenhos sobre tela, como se verá mais adiante. /// corrigido
Este é o último cajueiro da série. O gramado opaco e sem sombras, a copa da árvore rosa do outro lado do muro, um muro vermelho e o outro prateado e a sensibilidade cromática dedicada a captar as cores da realidade nortearam minha conduta nessa pintura. Eu estava fascinado com o resultado do Cajueiro n. 4 e queria repetir alguns procedimentos, como as linhas horizontais no céu. E isso chegou a ser feito. Mas, conforme a natureza do quadro foi se apresentando, desisti de fazer algo chocante e geométrico... Engraçado que me lembro até de ter lançado manchas amarelas de desconstrução dessa imagem... Mas depois fui cobrindo tudo de cor e formas naturais. Foi uma experiência fascinante pintar essa tela. Tinta acrílica sobre linho! /// corrigido
Mangueira florindo / 120 x 100 cm / óleo sobre tela
A tela começou com um desenho, e este ficou visível até o final. Sua composição centraliza a mangueira num esquema perfeito de figura e fundo. Após o desenho, lancei uma textura acrílica transparente sobre o monte Baepi, formando uma película, como um filme, sobre essa superfície. Não dei dimensão de profundidade até o chão, para aumentar a flutuação da personagem central. Uma camada fina de violeta de cobalto, que é uma cor transparente, foi aplicada a toda a tela e, depois disso, apenas um vermelho intenso, profundo e também transparente cobrindo todas as partes exceto a árvore. Foi curioso o céu e a área da montanha ficarem com tons diferentes. Isso só pode ser explicado pela ação translúcida da máscara de gel inicialmente aplicada. Deixar o desenho da árvore aparente foi uma estratégia adequada para verificar, nos quadros seguintes, a transmutação do desenho em pintura. Tudo que nesse quadro é carvão, virará tinta logo adiante. /// corrigido
Ateliê de Ilhabela / 60 x 70 cm / óleo e grafite sobre tela
Esse quadro começou quando vi o cavalete no centro da sala e veio o
desejo de registrar meu ambiente de trabalho. Surgiu um natural carinho pelo
ateliê, a vida das pinturas tomou o lugar e eu queria fazer um registro dos
bastidores. Então lancei uma fina camada de branco de zinco, que é transparente,
e, como o cavalete estava ocupado com uma tela, provavelmente apoiei o novo
suporte sobre uma mesinha. Lancei o desenho registrando primeiro os espaços
tridimensionais, depois os detalhes. O grafite da lapiseira 0.5 se dissolvia em
parte e formava montinhos de tinta por onde a linha passava. Este se tornou um
quadro decisivo para a produção de 2008 a 2012, como veremos. A supressão total
das cores trouxe um resultado cândido que me impressionou, e o mantive assim. O
registro do desenho, na pintura, era o que eu queria.
/// corrigido
Bananeiras e mangueira
Nessa tela, procurei preservar as cores naturais como um início de
processo, para depois substituí-las por cromias mais intensas e ficcionais.
Pintei o quadro copiando os elementos da natureza do fundo para a frente, da
esquerda para direita. Trabalhei com tinta bastante fluida; procurei respeitar
noções mínimas de claro e escuro. Quando cheguei no jovem pé de abacate, no
plano da frente, percebi que a tela estava ficando pronta e que meu intuito de
transformar as cores numa segunda camada não seguiria adiante. Então mudei as
cores da paleta e pintei esta planta, pela primeira vez, esquecendo o desenho de
referência que estava por baixo, mas registrando em tinta vermelha aquilo que
eu via. Gostei do resultado e fiz o mesmo com a mangueira, pintando seu corpo
de violeta e sua folhagem de preto. O mesmo com o pezinho de palmito, em
amarelo. Desenhar com tinta, à primeira camada, o que eu via foi um
procedimento libertador. O desenho virara pintura em sua atitude inicial.
/// Corrigido
Goiabeira / 100 x 120 / óleo sobre linho
Minha nova intenção era tratar toda uma tela como um desenho. Para tanto, eu precisaria iniciar a tela com um fundo único de cor, para simular uma folha de papel. Mas se esse fundo fosse branco, seria um resultado de contraste forte demais. Seria gráfico e não pictórico. Nessa época meu estoque de materiais era um conjunto de “retalhos” de tecidos, tintas e pincéis que eu pegara com o pai e com o avô pintor. Eu tinha pronta, portanto, uma tela grande feita com linho para retratos, super fino, o que é indicado para telas pequenas. Sem regras para isso, fiz uma tela grande com esse material. O grão fino da tecitura e sua aparência tornaram-se o fundo perfeito! O pincel de cerda fina, sob densas camadas de tinta preta viscosa, deslizava com precisão. O contraste cor e tela também se tornou especialmente favorável. Eu andara por todo aquele jardim, dia e noite, por meses. Começava a desenhar com os pincéis o formato de cada folha não por ver, mas por conhecer cada folhagem. Antes, com carvão, desenhei apenas os limites do muro e do gramado.
/// corrigido
Mangueira e coqueiros / 100 x 120
O resultado de Goiabeira fora demasiado positivo para minhas intenções de desenhar pintando. O tema tão conhecido da mangueira merecia uma nova leitura. Dessa vez, no entanto, decidi partir de um fundo de cor gradiente respeitando a ideia cromática de céu e gramado em suas cores naturais. Porém, antes, a perspectiva dos muros com carvão e pintei-os de branco. Trabalhar com empaste (densas camadas de tinta) ao lançar a primeira camada de caracterização da realidade… Esse momento de decisão maximizado. A transmissão das certezas de imagem… Me foi tudo muito confiante e agradável. O aspecto noturno da tela subverte a iluminação do dia. Mas aquilo era uma pintura e não a realidade e, portanto, conduzir um resultado plástico potente e novo foi, para mim, o fio condutor que desprendeu com nitidez o colorido da realidade, porque eu sabia o que estava fazendo, porque eu conhecia aquela paisagem de jardim muito bem.
Jaboticabeira e bananeiras
Nessa tela eu procurei dar cor às pastas de tinta preta das pinturas anteriores. Antes, porém, eu tinha um gradiente de cor lançado na tela (do vermelho escuro ao alto até um vermelho carmim embaixo), que foi anulado por pintar o céu de azul e as montanhas de amarelo. Restou apenas o gramado carmim. Antes de pintar a vegetação como quem desenha com os pincéis e cores, lancei o desenho da casa em branco transparente (dando numa tonalidade final rosa), como elemento de figura (a casa) e fundo (os muros à esquerda) preponderantes. Eu fugi da experiência de dar cor, desenho e cargas de tinta às minhas intenções imagéticas o quanto pude e comecei a pintura no meio da tarde. Era início de noite quando terminei a pintura. Até levei um spot de luz para o meio do gramado para iluminar a tela, mas a paisagem à minha frente já estava DENEGRIDA pela noite. Fiquei pensando se, na pressa do fim do dia, tinha encontrado as melhores soluções. Mas, olhando bastante para essa tela, concluí que o esforço expressivo dela estava completo. Não lancei, portanto, camadas de tinta subsequentes. Pensei, pensei e pensei se o resultado estava inacabado. Mas a palavra que me vem à mente é: aberto. É um resultado aberto. As formas da natureza se completam nos olhos. Não há um sentido de realidade necessário além daquilo que é fácil compreender: a jaboticabeira à esquerda, o pezinho de palmito em amarelo bário, as bananeiras. O restante da imagem é ordenamento estético. Às vezes o artista precisa se dar a liberdade de expressar um pensamento artístico inconcluso: linhas horizontais para expressar grama, uma mesma cor para expressar luz e sombra ou, ainda, uma variação cromática que faz a caracterização da vegetação ao alto se perder no olhar (jaboticabeira e mangueira se tornam uma só copa). Em algumas partes do quadro busquei lançar uma segunda camada de cores da vegetação, mas aí vi que não poderia fazer nada mais. Esse é um dos limites da expressão em cada tela. Esteja ela acabada ou não. Uma hora o limite aparece e há de se respeitar, apenas, o que foi construído até então naquele resultado específico. Foi o caso. /// corrigido
Comentários
Postar um comentário